Título: Todas as cores do céu
Autor(a): Amita Trasi
Gênero: Ficção

Uma leitura sobre tradições, luto, memória e a delicadeza de continuar vivendo

Aviso de conteúdo
O livro aborda temas emocionalmente delicados — como luto, violência, violência sexual, abuso sexual infantil (pedofilia), escravidão sexual e suicídio — que podem ser gatilhos.
A leitura é indicada com cuidado, especialmente para leitores sensíveis a esses temas.

Todas as cores do céu conta a história de duas garotas, Mukta e Tara, e de mundos profundamente diferentes, mas conectados pelo destino.

Mukta é uma menina cercada pela pobreza e por tradições milenares que afetam seu destino de forma devastadora. Ao completar dez anos, é forçada a participar de uma cerimônia de consagração que a transforma em uma devadasi – serva da deusa Yellamma. Com a fachada de um ritual sagrado, a tradição esconde a exploração sexual de crianças. Se você nascesse numa casta inferior e numa família de devadasis, esse era seu destino.

Tara, por outro lado, cresce envolta em riqueza — mas também em tradições igualmente antigas, que, embora menos visíveis, são igualmente opressoras e limitam sua liberdade de viver a própria vida.

Quando o pai de Tara, resgata Mukta e a leva para viver com sua família, Tara cria uma relação especial com Mukta – viram praticamente irmãs. No entanto, as diferenças de casta seguem determinando seus lugares no mundo. Mukta é sequestrada e a família de Tara muda para os Estados Unidos. Anos depois, Tara retorna à Índia para tentar reencontrar Mukta e se reconciliar com seu passado.

A Índia apresentada no livro é cheia de tradições culturais, luto, relações familiares, crítica social, solidão, aceitação, amor e até questões políticas e de violência civil. A narrativa expõe como costumes e estruturas sociais moldam destinos e como, muitas vezes, pessoas vivem uma vida completamente diferente daquela que gostariam de viver.

O livro provoca uma reflexão importante: buscar viver a própria identidade de forma plena, mesmo quando o contexto parece impedir isso.

Um ponto que me chamou muito a atenção foi o glossário ao final do livro. A autora opta por utilizar diversos termos indianos ao longo da narrativa, sem tradução direta, explicando-os apenas no final. Para mim, essa escolha foi maravilhosa: aprendi palavras novas e senti que a escrita ganhou ainda mais autenticidade. A história simplesmente faz mais sentido dessa forma.

A leitura é fácil e envolvente. A cada novo acontecimento, a curiosidade cresce e a vontade de seguir lendo também. Em muitos momentos, me senti transportada para os mundos de Tara e Mukta.

A escrita cria um universo vivo, onde tudo parece pulsar: as casas, as ruas, as tradições, os silêncios.

Trechos que ficaram comigo

Os fios da vida nem sempre são tecidos como queremos; às vezes, o padrão ao final é diferente do que imaginamos que seria, e, naquele momento, eu não tinha mais nada a fazer senão estar em paz com o que ficaria no passado.
(pág. 380)

Como uma tartaruga se recolhe no seu casco em busca de proteção, nós também precisamos construir uma parede em volta de nós. Talvez seja a única forma de continuar.

Certa vez cheguei a lhe perguntar: – O que você ganha com esses livros, afinal? Ela fechou o livro que estava lendo, pensou um pouco e disse: – É melhor que o mundo em que vivemos.

Deve haver algo sobre a dor, sobre o modo como nos toca tão profundamente, que, às vezes, não conseguimos voltar a ser quem éramos.

Algumas ligações são mais profundas do que as sanguíneas.

O único jeito de corrigirmos nossos erros é tentando desfazer o mal que causamos.

Há uma coisa que todos temos em comum, independente da casta ou da religião: todos somos feridos ao longo da vida, todos queremos sobreviver e ser felizes, e todos precisamos ser bem tratados. Afinal de contas, não escolhemos onde nascemos, mas podemos dar duro e pavimentar nosso caminho para o sucesso. E todas as pessoas da Terra merecem essa chance.

Dizem que o tempo cura tudo. Não acho que seja verdade. À medida que os anos passaram, comecei a achar estranho como coisas simples ainda podem nos fazer lembrar de tempos terríveis ou como o momento que nos esforçamos tanto para esquecer se torna nossa lembrança mais nítida.

Mas, acredite em mim, algum dia o nosso céu vai brilhar de novo. E vai ter a aparência e o cheiro de esperança. Não quero que se esqueça disso. Quero que tenha esperança, não desista.

Considerações finais

Recomendo este livro para leitores que gostam de narrativas introspectivas, de mergulhar em sentimentos e processos internos, e para pessoas que já viveram alguma perda.

É um livro para quem já enfrentou o luto e situações fora do próprio controle. A perseverança das personagens é dolorosa, mas também profundamente empoderadora.

Ao terminar a leitura, o sentimento foi a vontade de abraçar Mukta e Tara e brincar com Asha. O livro cria esse tipo de vínculo silencioso, em que os personagens deixam de ser apenas personagens e passam a ocupar um lugar de carinho, de identificação. É como se, ao fechar o livro, eles continuassem ali — pedindo presença, não explicações.

⭐⭐⭐⭐⭐

Ficou interessado no livro?
Clica aqui:
Todas as cores do céu

Veja minha Lista de livros lidos em 2025.


Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *